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Vilão ou mocinho?

4 • 09 • 17

Com a redução do desmatamento, o setor agropecuário tornou-se o vilão das emissões de gases-estufa no País. Mas soluções simples poderiam reforçar seu papel como sumidouro de carbono 

O Brasil está com a faca e o queijo na mão para cumprir suas metas de redução das emissões de gases-estufa no setor agropecuário, e até suplantá-las. Bons instrumentos estão postos e há tanta ineficiência no manejo das pastagens de bovinos que retirar 166 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (eq) da atmosfera ate 2020  não é dos mais difíceis desafios.

Com a redução significativa do desmatamento da Floresta Amazônica na última década, a agropecuária tornou-se a grande vilã da contribuição brasileira para a mudança climática, principalmente por causa da fermentação entérica (processo digestivo) do rebanho bovino. No Brasil, a pecuária bovina é composta de cerca de 200 milhões de cabeças que, juntas, arrotam toneladas de metano – em torno de 32 quilos de CO₂ eq para cada quilo de ganho de peso vivo.

Quanto aos arrotos de um animal ruminante, não há muito que fazer. Afinal, transformar capim em carne não é tarefa trivial. O animal produz e consome muita energia durante a ruminação e inevitavelmente gera grande quantidade de metano. “Melhoramento genético do rebanho com finalidade de redução de emissões ajuda, mas representa um ganho marginal”, explica Roberto Smeraldi, diretor da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira.

Contudo, o manejo sustentável das pastagens é a forma mais eficaz de compensar as emissões da pecuária, reduzindo o peso da atividade no balanço de carbono do setor agropecuário (diferença entre emissões e armazenamento de carbono). E, se esse manejo for bem feito, a remoção de carbono da atmosfera pela atividade pecuária, que já ocorre, tende a ganhar cada vez maior relevância, uma vez que o aumento e a diversificação no uso de gramíneas de melhor qualidade e leguminosas implicam maior captação de CO₂ e oxido nitroso (N₂O), respectivamente.

Carol Von Canon/ Flickr

O Brasil tem cerca de 26% de seu território ocupado por pastagens, ou 220 milhões de hectares. Desse total, a agrônoma Susian Martins, especializada em ecologia de ecossistemas e pesquisadora do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV–Eaesp (GVces), informa que em torno de 60 milhões de hectares encontram-se degradados. “A degradação do pasto promove uma agropecuária mais extensiva e emissora”, observa. Nessas condições, pasteja em média apenas 0,5 animal por hectare. Para neutralizar as emissões, segundo estudos realizados pela Embrapa, e preciso que a taxa média suba para pelo menos 1 a 2 animais por hectare.

Para dar ideia da redução de emissão que se obtém com o melhoramento das pastagens, a agrônoma desenhou uma escala de recuperação mostrando o seguinte resultado: quando o animal passa da pastagem degradada, onde emite 32 quilos de CO₂eq por quilo ganho de peso vivo, para outra apenas um pouco melhor, com braquiária , as emissões são reduzidas quase a metade, 17 quilos de CO₂eq. Se o produtor incorporar uma leguminosa , as emissões despencam para 9 quilos. Ao adicionar também uma adubação e correção do solo, a queda vai a 3 quilos. E, ainda, fazendo uma integração com floresta (plantio de arvores lenhosas perenes), o pecuarista não só melhoraria o retorno financeiro da propriedade com a venda da madeira, como seu balanço de carbono sairia do vermelho (o armazenamento de carbono seria equivalente ou superior às emissões). Grosso modo, essa é a proposta do Plano ABC, lançado em 2010 pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, com vigência até 2020.

O Plano ABC tem o suporte de uma linha de crédito (Programa ABC) que financia o produtor em ate R$ 1 milhão por safra para recuperação de pastagens degradadas, com juros de 5% ao ano. E a boa notícia é o aumento do número de adesões ao crédito ABC, apesar da indefectível burocracia bancária. Para ser elegível ao financiamento, o produtor rural deve apresentar, além da papelada usual, um projeto detalhado de mitigação das emissões. Isso torna a análise pelo agente financeiro um pouco mais complexa e lenta. Ainda assim, os resultados da última safra surpreenderam: enquanto no lançamento do programa, safra 2010-2011, o governo desembolsou R$ 418 milhões, na áltima, a 2013-2014, o Programa ABC já havia liberado R$ 2,2 bilhões até o fechamento do balanço de marco. “Isso á muito bom, pois significa a adesão dos pecuaristas as técnicas de manejo preconizadas pelo Plano ABC, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta”, comemora Susian Martins.

METODOLOGIA IMPORTADA

No segundo inventário das emissões de gases de efeito estufa no Brasil, a fatia atribuída à agropecuária representou 35% do total em 2010. Em 2005, ano em que o campeão de emissões era o desmatamento, com 57%, a agropecuária respondia por 20% do volume de gases-estufa lançados na atmosfera. De acordo com analises do Observatório do Clima, apesar de extremamente importantes, os dados dos inventários são pouco efetivos, sobretudo, devido ao seu descolamento em relação ao período de apuração das informações (longo hiato entre ocorrência e divulgação das emissões). Além disso, sua metodologia não agrega dados sobre as pastagens bem manejadas. Ou seja, o Brasil possui um outro lado da moeda onde aparece uma pecuária moderna, e ate de ponta, que não está entrando nessa conta. “A imagem do Brasil está sendo prejudicada por falta de pesquisas que comprovem qual e o real nível de emissões da pecuária brasileira”, diz o assessor técnico da Comissão Nacional de Bovinocultura de Corte da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Paulo Sergio Mustefaga.

Para Susian Martins, parte da solução virá com a implementação de vários mecanismos. Um deles e a entrada em vigor do Cadastro Ambiental Rural (CAR). O instrumento devera ser implementado após a regulamentação do novo Código Florestal, com finalidade de integrar as informações ambientais referentes a situação das áreas consolidadas das propriedades e posses rurais do Pais.

Além do CAR, segundo a agrônoma, a Embrapa está finalizando a montagem de um laboratório que será capaz de monitorar as propriedades com base em imagens de satélite. Cruzando todos esses dados com as informações de desembolso de crédito, em cujo contrato constam dados de latitude e longitude das propriedades rurais financiadas, será possível fazer um inventário bem estratificado. Enquanto não houver um sistema nacional agregando as informações por propriedade, fica no mínimo desconfortável apontar quem e vilão e quem e mocinho no universo da mudança climática.

Fonte: Página 22 

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